Dr. Milton

PRIMEIROS ANOS

José Benedito Pereira era prático em farmácia. Como tal, iria praticar o comércio em várias cidades no decorrer dos anos. No início dos anos 30, estabeleceu-se no interior de São Paulo, onde veio a se casar com Julia Pinto, filha de uma família tradicional de fazendeiros da região. Milton nasceu em Itatinga, interior de São Paulo, em 09 de dezembro de 1932, primogênito de José e Júlia.

Desde cedo foi muito ligado à avó Firmina, típica matriarca de família daqueles tempos. Com os estabelecimentos itinerantes da farmácia de seu pai, em Itatinga, Botucatu, Pardinho, Avaré e outras cidades da região, Milton passava muito tempo na fazenda da avó, principalmente durante as férias, rotina que marcou sua infância e influenciaria todas as suas memórias posteriores, mesmo muitos anos depois que os tios, após a morte da matriarca, acabaram por vender aquelas terras.

Passeios em carro de boi, pomares cheios de frutas, a fila das crianças para o banho de tina, com suas irmãs mais novas Miria e Myrtes e os primos, seriam lembranças recorrentes até em suas histórias para os netos. Em especial, tinha um amigo, Zezinho, que era neto de escravos e companheiro daqueles dias tranquilos na fazenda, para onde continuou a ir em todas as férias escolares, mesmo já quando no grupo escolar de Avaré, de cuja estação saía a pé até a casa pequena que habitava durante o período letivo.

Ainda menino foi com a família para o norte do Paraná, onde o pai foi se estabelecer com sua farmácia, nas então novíssimas cidades de Marialva, Mandaguari, Maringá. Ajudava o pai na farmácia, quando não estava estudando. Em uma dessas cidades, a farmácia do pai ficava em frente ao Fórum, onde Milton via entrar, todo dia, com expressão sisuda, de terno e chapéu, o juiz da comarca, despertando o fascínio do jovem Milton.

Conta-se que um dia a curiosidade lhe levou a visitar o Fórum, para tentar saber mais sobre aquele senhor de chapéu que granjeava o respeito de toda a comunidade, que lhe cumprimentava e lhe mostrava um certo temor reverencial. Visitando a sala do juiz, lhe perguntou como fazia para julgar tantos casos difíceis. O juiz lhe mostrou uma edição do Código de Processo em cima de sua mesa e lhe disse: “Está tudo aqui, na lei”. Nascia ali a vocação de Milton para o Direito e para a Magistratura.

ESTUDANTE EM CURITIBA

Nos idos de 1951, Milton desembarcou em Curitiba, com pouquíssimo dinheiro, decidido a seguir com seus estudos e tentar cursar a faculdade de direito. Procurou e encontrou emprego como graxeiro em uma oficina mecânica, onde dormia, nos fundos, atrás dos carros naquela garagem.

Pouco tempo depois, em idade para o serviço militar e animado com o parco, mas necessário soldo a que tinha direito, inscreveu-se no CPOR, onde graduou-se oficial da reserva e onde acumulou muitas histórias incríveis e amizades que durariam por toda a vida.

Conseguia se sustentar com dificuldades, pois não contava com o dinheiro do pai, que continuava mantendo farmácias em cidades do interior e tinha que cuidar de suas outras duas filhas. Assim, conseguiu um emprego na Rádio PRB2, como locutor, emprego no qual permaneceu durante todo o tempo em que cursava a faculdade de direito da Universidade Federal do Paraná, onde ingressou em 1954. Participou ativamente de atividades acadêmicas e chegou inclusive a ganhar a medalha de ouro no Concurso Nacional de Oratória de 1958.

CAMPO MOURÃO

Milton se formou em 1958 e, pouco depois, a tanto incentivado por colegas de turma, em especial o dr. Eduardo Portes Rocha, amigo de longa data e de toda a vida, deixou seu emprego na Rádio PRB2, juntou suas parcas economias e foi tentar a vida no norte pioneiro. Deixou em Curitiba a noiva, Rizoleta Mary Pereira, que conhecera na Rádio e quem viria buscar algum tempo depois, para, já casados, se estabelecerem em Campo Mourão.

Morando primeiro em um hotel, Milton começou a carreira de advogado, destacando-se por sua verve e por sua firmeza na defesa das causas. Nomeado defensor dativo, atuou em muitos julgamentos do Tribunal do Júri e, após seu casamento com Mary, em 09 de dezembro de 1959, foi morar em uma casa alugada, onde moraram por alguns anos e onde nasceram seus três filhos mais velhos.

PREFEITO

Milton tinha bom relacionamento com várias pessoas da sociedade de Campo Mourão e acabou sendo por eles indicado candidato a prefeito municipal, em uma eleição memorável que ganhou após fazer uma campanha de casa em casa, voto a voto, em 1963. Sua administração ficou conhecida por grandes realizações e por um controle absoluto das finanças do município, de que prestava contas ao vivo pela rádio local, ficando conhecido por sua honestidade e rigidez no trato da coisa pública. Em sua administração, Campo Mourão recebeu o título de Município Modelo do Estado.

O FUSCA

Durante seu mandato de prefeito, Milton, que perdeu a renda que auferia como advogado, teve que se desfazer de parte de seu minguado patrimônio para se manter, eis que os vencimentos de prefeito não eram altos. Ademais, recusava terminantemente presentes ou quaisquer facilidades por sua posição como prefeito. Por isso, chegou ao fim do mandato endividado.

No ano de 1967, faltando poucos meses para o fim do mandato, renunciou ao cargo de prefeito para realizar seu sonho profissional, tendo sido nomeado juiz federal substituto, pouco tempo após a restauração da Justiça Federal no país. Pela rádio de Campo Mourão, comunicou o povo de sua decisão.

Como agradecimento e para ajudar Milton em sua saída da prefeitura, com sua situação financeira sabidamente precária, todo o povo da cidade aderiu a uma campanha de arrecadação de doações, desde alguns cidadãos mais abastados até os mais humildes, que contribuíram com dinheiro e também com o que podiam, até com galinhas e frangos. Sabendo que Milton jamais concordaria em receber presentes ou doações, em razão de sua conhecida e rigidíssima ética, os organizadores da campanha usaram o valor arrecadado para lhe comprar um carro, uma vez que, enquanto exercia o cargo de prefeito, Milton fora obrigado a vender seu velho Ford Coupé para saldar algumas dívidas.

No dia de sua despedida da prefeitura, alguns funcionários seus pediram que ele saísse da sala e fosse até a entrada do prédio do paço municipal, construído em sua gestão. Chegando lá, Milton se deparou com uma multidão que o ovacionava, enquanto lhe descortinavam o presente: Um fusca azul, zero quilômetro, comprado com o dinheiro arrecadado a duras penas pelo povo da cidade.

Acompanhado de sua esposa Mary e da filha mais velha, Gisele, que estava casualmente com eles na ocasião, entrou no veículo, sob aplausos, ainda tentando protestar, dizendo que não deveriam ter usado o dinheiro do povo para lhe comprar um carro. Vendo, porém, que se tratava de um gesto de apreço genuíno e um esforço de todo o povo, em conjunto, para lhe homenagear, Milton acabou aceitando o carro.

Um fato curioso é que, ao tentar atender aos gritos da multidão que pedia que ele desse partida no carro, verificou que, no afã de lhe entregar o veículo, ninguém se lembrara de colocar combustível no carro, que, claro, não funcionou. Sem se fazerem de rogados, os funcionários e o povo presente na homenagem começaram a empurrar o veículo por todo o percurso da prefeitura até a casa da família de Milton.

O fusca azul foi o único carro de Milton até o fim de sua vida.

JUIZ FEDERAL

Em 1967, Milton realizou o sonho de infância, ao tomar posse como Juiz Substituto na Justiça Federal do Paraná. Mudou-se para Curitiba e começou os trabalhos, junto com os demais nomeados, dr. Manoel de Oliveira Franco e dr. Lício Bley Vieira. Com pouquíssimos recursos, alojados provisoriamente em um espaço emprestado, iniciaram a gigantesca tarefa de instalar e consolidar a Justiça Federal, então uma entidade pouco conhecida da população.

Amparada em inegável vocação, sua carreira na magistratura federal foi brilhante, reconhecida por todos. Após vários anos como juiz federal em Curitiba, foi nomeado juiz do Tribunal Regional Federal da Primeira Região, em São Paulo, quando da reorganização do Judiciário pela Constituição Federal de 1988, tendo sido o primeiro presidente daquela Corte.

Em 1992, foi nomeado e tomou posse como Ministro do Superior Tribunal de Justiça, após receber apoio e uma maciça campanha da comunidade jurídica do Paraná, da imprensa e de seus pares. Naquela Corte trabalhou com esmero, ganhando rapidamente o respeito de todos, durante dez anos, até sua aposentadoria compulsória, aos 70 anos, em 2002.

ÚLTIMOS TEMPOS

Milton passou seus últimos anos de vida em Curitiba, dedicado à família. Exceto por algumas viagens feitas em razão de aulas ministradas, ou uma viagem para rememorar a infância em sua terra natal, no interior de São Paulo, permaneceu em sua casa da av. Iguaçu, seu endereço por quase quarenta anos, com Mary, companheira de toda a vida, seus filhos Gisele, Gislene, Celso, Luciene e Marcus, e com seus nove netos. Recusou convites para voltar a exercer a advocacia ou dar pareceres, pois entendia que poderia ser entendido como um indevido exercício de influência de sua condição de ministro aposentado. Suas únicas atividades profissionais foram alguns artigos diversos, aulas inaugurais ministradas em cursos jurídicos, palestras e conferências.

Milton sempre foi um homem muito religioso e em seus últimos anos participou ativamente da vida paroquial junto à Igreja do Santíssimo Sacramento, onde ia diariamente à adoração do Santíssimo. Aproveitou muito o tempo final de sua vida para uma vivência profunda de sua fé, o que exteriorizava com um evidente bem-estar e paz interior.

Em 09 de dezembro de 2009, comemorou com familiares, na capela em frente à sua casa, suas bodas de ouro com sua esposa Mary, ocasião em que salientou sua fé e o valor dos vínculos familiares. Pouco tempo depois, com o diagnóstico de câncer de pulmão de Mary, passou a se dedicar inteiramente aos cuidados com a esposa, dando um espantoso testemunho de fé e de companheirismo.

Após contrair uma pneumonia no final do ano de 2011, manteve-se sob cuidados médicos. Passou as festas de fim de ano com a família mas, logo em seguida, voltou a adoecer, sendo internado em janeiro de 2012, quando se diagnosticou que também tinha câncer de pulmão. Muito unidos, marido e mulher foram internados quase simultaneamente, dividindo a mesma UTI, onde, em odores de santidade, vieram a falecer com apenas algumas horas de diferença, em 15 de fevereiro de 2012.

Em sua memória, foi criado este Instituto, entidade filantrópica que visa enaltecer os ideais do homenageado, promovendo trabalhos de cultura jurídica e ações sociais.